Autoconhecimento e empoderamento: Porque você ainda vai ouvir falar muito sobre isso

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Autoconhecimento e empoderamento. Duas palavrinhas que nunca foram tão utilizadas na história do Brasil como são hoje. Tem gente que acha que é modinha. Ou que está se tornando algo batido. Ou que o uso massivo dos termos corrompe ou esvazia seu sentido.

Nada disso. Vem comigo que eu vou te explicar porque você vai ouvir falar cada vez mais sobre isso.

Hoje, estamos vivendo no Brasil um momento bastante desafiador e peculiar de transição de valores. A World Values Survey (WVS) é um projeto que desde a década de 80 coleta dados sobre os valores e crenças em 90% dos países do mundo e estuda como estes valores impactam o desenvolvimento político e social desses países.

Segundo essa pesquisa, o Brasil encontra-se exatamente nesse momento de transição. De acordo com a WVS, existe um padrão natural e evolutivo em todas as sociedades em que a medida que melhoram os índices sócio econômicos de um país, os seus valores gradualmente mudam de “tradicionais” para “seculares”. Isso tem impacto positivo nos índices socio-políticos, de bem-estar e felicidade daquela nação.

Valores Tradicionais são aqueles que enfatizam a importância dos dogmas religiosos, da autoridade e dos valores tradicionais da família.

E valores Seculares enfatizam a defesa das minorias, tem menos ênfase na religião (mas aumento da espiritualidade), na autoridade e na instituição tradicional da família. Liberdade de expressão e igualdade de direitos tornam-se valores centrais.

Nas últimas décadas, o Brasil viveu um crescimento econômico de todas as classes sociais, mas principalmente da base da pirâmide. Vimos um aumento considerável no consumo das classes C e D, que hoje tem acesso a muito mais bens materiais do que tinham há 20 anos atrás. O aumento da renda per capita no Brasil supre de maneira considerável necessidades mais básicas da nossa população.

Com o aumento da renda, cresce a quantidade de brasileiros que começam a dar valor para coisas que não são apenas materiais e de ordem tradicional, ou seja, cresce a expressão de valores seculares (liberdade e igualdade).

No Brasil temos:

– O avanço econômico que, apesar de todos os desafios que estamos vivendo na economia e política de hoje, já nos permite enfatizar outros valores que não sejam apenas os materiais e a busca por segurança material, pois essa base já foi conquistada por uma parcela considerável da população.

– Uma geração que está vivendo uma transição de valores.

Muito bem. É ai que o empoderamento entra em cena.

Segundo o Christian Welzel, o politico social que encabeça o projeto da World Values Survey, para que uma sociedade possa seguir melhorando seus índices sociais e atingir altos níveis de felicidade e bem-estar, ela deve passar por um processo de empoderamento dos seus cidadãos.

Paulo Freire, um dos principais educadores brasileiros, foi o primeiro a traduzir o termo “Empowerment”para o português. Para o grande mestre, empoderamento é:

“capacidade do indivíduo realizar, por si mesmo, as mudanças necessárias para evoluir e se fortalecer”.

Eu gosto de definir empoderamento como sendo um processo emancipatório onde o indivíduo dá poder à si próprio para viver a vida conforme seus valores e desejos.

Quando a pessoa escolhe por se empoderar, ou seja, por retomar o seu poder, ela fica consciente das decisões que toma para a sua vida, conhece suas capacidades e suas possibilidades de contribuição para o mundo. Dessa forma, tornam-se mais criativas e produtivas, o que para a sociedade é ótimo, pois aumentando a capacidade produtiva dos seus cidadãos, alavancamos nosso bem estar econômico e social.

O indivíduo empoderado vive de forma plena seus valores e tem alto senso de pertencimento e reconhecimento, tornando-se mais crítico e engajado socialmente e menos suscetível a manipulações. Evoluímos para um novo estágio, entramos em uma espiral positiva de desenvolvimento, de prosperidade.

Welzel nos explica que para um indivíduo se empoderar, é necessário que se faça presente 3 fatores:

Capacidade: EU CONSIGO. Significa que a pessoa tem os recursos materiais e conhecimentos necessários para ser protagonista do seu destino.

Possibilidade: EU POSSO. Significa que existem instituições formais que permitem a liberdade de expressão individual. Estamos falando de instituições democráticas.

Motivação: EU QUERO. Significa que liberdade de expressão e igualdade de direitos são valorizados e luta-se para mantê-las. Ou seja, o indivíduo quer ser autônomo e responsável pelo seu destino.

No Brasil, em geral, nós temos duas destas condições relativamente encaminhadas:

Capacidade: o avanço econômico das últimas décadas já permite que a maior parte da população consiga sobreviver com seus próprios recursos materiais.

Possibilidade: Temos ainda muito espaço para avançar no amadurecimento da nossa democracia, e apesar dos acontecimentos políticos recentes, acredito que nos manteremos na rota da sua consolidação.

E por fim, a motivação: EU QUERO. A motivação psicológica só acontece através da educação, do desenvolvimento de seres humanos com capacidade crítica, empatia pelos seus semelhantes e conhecimentos necessários para buscar seu próprio caminho.

É ai que Autoconhecimento entra em cena.

O autoconhecimento é fundamental na conscientização dos indivíduos de seus valores, emoções, capacidade de aprendizagem e motivação para prosperar e buscar a própria felicidade.

Quanto mais nos conhecemos, mais naturais são nossas escolhas na vida, mais nos tornamos donos do nosso caminho, ficamos mais resilientes nos momentos de dificuldade e valorizamos o direito de liberdade e expressão de todos os seres humanos.

O autoconhecimento é condição necessária para que possamos navegar em uma era tão complexa e de muitas escolhas, pois permite o desenvolvimento do discernimento necessário para fazermos as escolhas que realmente queremos, que vêm de dentro e que nos guiam para uma vida íntegra onde discurso e ação estão alinhados.

Quando nos engajamos em um processo de autoconhecimento, ativamos a motivação interna para a evolução da consciência e construção de um mundo melhor para todos.

Espere ouvir falar muito sobre autoconhecimento e empoderamento. E alegre-se por isso.

[Crédito da Foto: Greg Rakozy]

 

Co-fundadora, produtora de conteúdos e facilitadora sênior dos cursos e programas do Moporã. É especialista em desenvolvimento humano nos temas: propósito de vida, transformações culturais e empoderamento feminino. Também é uma buscadora do mundo interno e externo, viajante e nômade digital.

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