Qual é a diferença entre Propósito de vida e metas?

Role para baixo

Essa confusão entre metas e propósito é muito comum e até compreensível por uma razão muito simples: entendemos que tanto propósito como metas (ou objetivos que queremos alcançar na vida) apresentam um fim, um ponto de chegada, um destino que almejamos. Como uma flecha que sai do arco em busca do centro do alvo.

Mas esse é um entendimento superficial e perigoso sobre o seu propósito de vida e a melhor forma para clarear a diferença entre essas duas poderosas ferramentas é mostrando alguns bons exemplos.

Até o final deste texto você vai entender:

  1. Qual é a diferença entre metas e propósito.
  2. Porque devemos ter metas e um propósito de vida definidos. O que você ganha com isso (e eu já adianto que o seu ganho não é pequeno!).

 

Vamos começar pelo exemplo mais fácil: a analogia da montanha. Temos um alpinista que define que o seu objetivo é subir até o topo de uma montanha. Existem quatro diferentes rotas para chegar lá. Baseado nas suas habilidades e nas condições climáticas, ele define qual rota parece ser a mais propícia para chegar até o topo da montanha.

E aqui eu te pergunto: O que é a meta e o que é o propósito nesse exemplo?

Parece bastante óbvio que meta é conseguir chegar no topo da montanha usando a rota definida. Esse é o alvo. E se essa foi a sua resposta, você está correto.

E agora qual é o propósito de vida do alpinista? Se você respondeu subir até o topo da montanha, segure esse pensamento que eu quero te dar outra perspectiva.

Suponhamos que o propósito de vida do alpinista seja subir aquela montanha. O que acontece depois que ele atinge esse feito? Comemora por alguns minutos e depois entra em profunda crise existencial, pois acabou de atingir o seu propósito de vida. E agora, não há mais nada que lhe dê sentido? O que fazer depois que você atinge o seu propósito de vida? Veja que essa não pode ser a resposta lógica para o propósito de vida do alpinista. Algo está errado.

Para podermos trazer luz a essa questão vou te contar uma história real.

 A HISTÓRIA DO JOÃO

Na Chapada Diamantina existe um guia chamado João. Ele é uma verdadeira lenda entre os guias da região e todos o conhecem simplesmente como João Guia.  João foi precoce, começou a sua atividade aos 14 anos acompanhando e aprendendo com o primeiro guia da região. E ao longo das décadas, (que eu especulo algo em torno de duas a três) João se tornou um mestre na sua profissão, liderando biólogos, geólogos e turistas pelos íngremes paredões das chapadas e pelos tortuosos vales com rios de águas puras.

Eu já contratei os serviços do João duas vezes com uma boa diferença de 12 anos entre cada jornada. Nesses dois diferentes períodos de intenso convívio por dias, eu percebi algo surpreendente: fizemos um cálculo e chegamos a conclusão que ele já havia feito aquela mesma trilha de 5 dias mais de 1.000 vezes na vida! E o mais impressionante é que, na minha percepção, parecia que era a primeira vez. Sim, ele conhecia cada pedra do caminho, mas em nenhum momento eu o percebi entediado ou aborrecido por estar fazendo tudo aquilo novamente e nem senti qualquer traço de ansiedade quando ele falou que daqui alguns dias ele estaria novamente sentado naquela mesma pedra em que conversávamos.

Muito pelo contrário, nas duas vezes que estive com ele João explodia energia positiva e felicidade. Sempre sorridente, brincalhão e incansável.  Neste intervalo de 12 anos, João quase não mostrou sinais de envelhecimento e a sua jovialidade era palpável.

Intrigado com essa experiência (afinal esse é o meu ofício e faz parte do meu propósito, como você verá algumas linhas abaixo) comecei a investigar o que fazia do João, o João Guia. E de forma inocente perguntei: João, o que te faz feliz? João me olhou com certo desapontamento por eu estar fazendo uma pergunta tão óbvia e respondeu: “Caminhar, oras.”

Como um mestre zen que fala sem palavras, João havia me revelado seu mundo. Um mundo que ele cria intuitivamente, mas que não necessariamente lhe é consciente.

João não quer chegar ao final da trilha. Ele quer ESTAR na trilha.

E esse é o segredo para você viver o seu propósito de vida com inteireza.

A meta nos dá foco e iniciativa para agirmos. Sem a trilha o João não saberia para onde caminhar. A meta lhe dá uma estrutura para que ele possa viver o presente.

Caminhada
João Guia: “João, o que te faz feliz? Caminhar, oras!”

O propósito de vida nos coloca no presente. O prazer está em cada passo. Para João estar na trilha caminhando significa que ele estará vivendo a vida que para ele vale a pena ser vivida: em contato íntimo com a natureza, conhecendo pessoas novas e suas histórias, mostrando a essas pessoas a beleza e riqueza de seu mundo e oferecendo a elas a melhor experiência que elas poderiam ter na Chapada Diamantina. Além disso, ao longo do caminho ele encontra os moradores locais que vivem isolados, trazendo e levando notícias, sentindo-se parte dessas famílias que demonstram enorme carinho e respeito pela missão de João.

Esse é o sentido que João Guia deu a sua vida e ao definir suas metas e buscar alcançá-las ele vive esse propósito todos os dias.

Edmund Hillary, o primeiro ocidental a chegar ao topo do Everest, ao ser questionado por um jornalista por que ele resolveu arriscar a vida para subir até o topo da montanha mais alta do planeta, deu- assim como João Guia-uma resposta zen: “Porque estava lá.”.

Pouca importa a montanha. O sentido para Edmund era outro e eu não faço ideia de qual seja, mas chegar ao topo do Everest foi só um meio para viver esse propósito, para se colocar com a experiência de viver o presente, passo a passo.

Everest
Edmund Hillary: “Porque subir o Everest? Porque estava lá”

Perceba que não é a atividade em si que determina o propósito de uma pessoa. A atividade é apenas um meio pelo qual a pessoa vive o seu propósito. Ou como coloca Sri Prem Baba em seu best-seller “Propósito – A coragem de ser quem somos”:

O propósito interno está relacionado com aquilo que a pessoa faz no mundo, mas o fazer em si não é o propósito. O fazer é um instrumento por meio do qual o propósito se realiza.”  

Usando outra analogia para tornar esse conceito mais claro: para um surfista o propósito seria estar no mar, vivendo a experiência de estar no mar, por algum motivo que só ele sabe e que é só seu, intransferível e único. E surfar a onda é a meta, a atividade que o surfista escolheu para se colocar no mar. Não importa que tipo de onda, se está frio ou calor ou em que praia ele surfe, o mar é sempre o mesmo.

Perceba que nesse entendimento o nosso propósito de vida não tem um ponto de chegada, não tem um fim. Sempre teremos uma nova montanha para escalar, uma trilha para andar ou uma onda para surfar.

Quando perguntado qual o sentido da vida, o místico Osho respondeu:

A vida não tem qualquer objetivo, a vida não está indo para lugar algum. A vida está simplesmente aqui”.

E Eckhart Tolle, considerado hoje o líder espiritual de maior influência no mundo,  em uma palestra onde abordou o tema “Propósito de vida” nos deixou o ensinamento de que o nosso propósito

É estar presente no agora, totalmente alinhado com o presente momento, pois é isso que está manifesto. É o agora. É viver o que tem que ser vivido agora. E não tentar viver o futuro desejado, idealizado.  O seu propósito primário é conseguir viver o agora. O que já é um bom desafio. O futuro é criado pela sua mente. E ficamos presos na mente. No futuro. Em algo que não existe e nunca existirá.

E este é o estranho paradoxo que temos que equilibrar:

Se vivemos uma realidade temporal, com passado e futuro toda hora pipocando em nossas mentes através de memórias e planos, como estar no presente?

Com fazer isso na prática, de forma realista?

A DANÇA ENTRE AS METAS E O PROPÓSITO DE VIDA 

As metas te ajudam a lidar com o tempo, a dar foco, prioridade, a fazer escolhas e a concentrar energia para que a sua consciência se coloque inteira no presente. Este é o papel do ego: criar a estrutura para que a possamos viver o agora.

João cria trilhas e roteiros turísticos para caminhar, para que ele possa estar vivendo a experiência do agora com os rios, flores, pássaros, pedras e amigos de caminhada. Ele criou as condições para viver o presente nesse mundo.

Criar metas na sua vida te ajuda a dar foco para que você se coloque em ação e viva o seu propósito todos os dias.

Mas para que isso funcione você precisa primeiro definir qual é o seu propósito. Pois como diz o Gato em “Alice no país das maravilhas”: “Se você não sabe aonde quer ir, qualquer caminho serve.”

Ou seja, qualquer meta ou objetivo serve. Você não sabe que tipo de experiência de “agora” você quer viver. Você ainda não entendeu que para surfar você precisa estar no mar. Ou pior, você ainda nem sabe que existe um mar.

E mais perigoso, você fica à mercê dos interesses e objetivos de vida de terceiros, e facilmente você pode entrar no jogo da manipulação.

Uma vez que o seu propósito é claro, definir metas, ou seja, rotas que permitam que você viva o seu propósito dia a dia, se torna uma tarefa criativa e mobilizadora.

Vou te dar mais um exemplo. Vou te contar como eu faço.

Hoje o meu propósito de vida é muito direto: “Dedico minha vida a criar contexto para o florescimento.” E aqui cabe uma explicação, afinal essa frase é clara para mim, mas não necessariamente para você.

Um contexto é um lugar, mesmo que intangível, onde algo acontece. E no meu caso diz respeito a “locais onde eu junto pessoas”, como por exemplo, esse texto, ou um vídeo em nosso canal no Youtube, ou um curso online, ou até mesmo a própria empresa Moporã. Eu crio esses contextos para veicular uma mensagem que ajude a quem estiver nele a florescer, ou seja, a reconhecer o seu potencial, a sua essência divina, para que possam então criar uma vida com mais prazer e significado.

E para que eu possa viver esse propósito no momento presente, no agora, (como está acontecendo nesse exato momento ao escrever essas linhas) eu crio metas que me colocam em ação focada e concentrada, como por exemplo:

– Criar um novo curso nesse semestre.

– Escrever 4 textos por mês.

– Gravar 4 vídeos por mês para veicular no Youtube

– Lançar uma nova turma do “Programa Crie Seu Caminho no próximo semestre.

Dessa forma, todos os dias eu me coloco a serviço do meu propósito de vida. Eu crio condições para tentar direcionar o meu tempo da forma que mais faz sentido para mim. Assim como o João, as minhas metas me ajudam a viver a vida que para mim vale a pena ser vivida, todos os dias – ou pelo menos na maior parte dos dias – de forma que a minha vida se torna um fluxo presente e criativo.

Perceba que eu nunca vou finalizar esse processo de “criar contexto para o florescimento”. Não tem fim. E que bom! Pois assim posso me colocar engajado em diversas atividades de criar contexto para o florescimento até o fim da minha vida, ganhando com isso uma vida com prazer, significado, engajamento e motivação.

O tédio vai passar longe da minha rotina, as segundas-feiras serão motivo de festa e não de sofrimento, e cada dificuldade enfrentada é apenas um motivador para que eu dê o meu melhor para ultrapassar os desafios.

Como coloca Augusto Cury:

Os nossos maiores problemas não estão nos obstáculos do caminho, mas na escolha da direção errada”.

Todo dia o alpinista vai poder escalar uma nova montanha, o João Guia vai poder fazer uma antiga trilha como se fosse nova e eu vou poder me desafiar a criar conteúdos melhores do que esse. E cada dia se renova em si mesmo, cada dia traz um novo aprendizado, uma nova experiência, mais um tijolinho que se empilha no seu crescimento pessoal e evolução.

E você tem a certeza de que a sua vida vale a pena ser vivida. Como coloca Joseph Campbell:

Dizem que o que procuramos é um sentido para a vida. Penso que o que procuramos são experiências que nos façam sentir que estamos vivos.

E se você quiser saber mais sobre todos os benefícios que viver uma vida com propósito te proporciona, lhe convido a ler este texto. Você também pode assistir a este vídeo onde mostramos 4 motivos que a ciência comprova do porquê você deveria materializar o seu propósito de vida o quanto antes.

Boa caminhada!

[Crédito da Foto: Greg Rakozy]

Life Coach com especialização em Propósito de Vida, Talentos, Ansiedade, Liderança, Transformações Culturais e Modelo Cognitivo. Apaixonado pela evolução da consciência vive como Nômade Digital buscando no mundo o que existe de melhor em desenvolvimento humano. Tudo o que vive e aprende compartilha em cursos e conteúdos do Moporã.

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