Propósito e Vocação: qual é a diferença?

Role para baixo

As palavras têm o poder de criar.

Pode parecer uma frase bonita e inspiracional. Em um segundo momento você a ignora e segue a sua vida rotineira sem lembrar-se dela. Mas pare um minuto e acompanhe o meu raciocínio, pois as palavras têm literalmente o poder de criar a sua realidade.

A psicologia cognitiva-comportamental de Aaron Beck nos presenteou com o modelo cognitivo. Esse modelo explica de forma simples e direta a relação entre os nossos pensamentos e comportamentos: todo evento que você vive- seja participar de uma reunião no trabalho, esperar na fila do supermercado ou assistir a uma partida de futebol com amigos- é acompanhado pelos seus “pensamentos automáticos”.

Esses pensamentos funcionam como scripts de computador, comandos predefinidos que muitas vezes são inconscientes e rápidos demais para nos darmos conta. Mas é através deles que interpretamos os estímulos externos e direcionamos os nossos comportamentos, sentimentos e a nossa própria fisiologia.

O evento é neutro. É você, a partir dos seus pensamentos, que dá sentido e qualidade ao evento. Por exemplo, Pedro e Ana são casados e todos os dias antes de sair para o trabalho Ana dá um beijo em Pedro. Hoje isso não aconteceu e Pedro, por algum motivo, disparou um pensamento automático: “acho que ela está brava comigo, será que fiz algo?”.

Mas veja que Pedro também poderia ter pensado: “acho que ela está com pressa e acabou esquecendo o meu beijo.” Ou “puxa, ela realmente está preocupada com aquele projeto, nem se lembrou de me dar um beijo, coitada, está bem estressada.” E podemos passar o dia inteiro aqui criando pensamentos para esse pequeno evento.

O evento é neutro. É você, a partir dos seus pensamentos, que dá sentido e qualidade ao evento.

O ponto aqui é que essa história que Pedro contou para si mesmo, sobre os estímulos que ele acabou de receber, molda os seus comportamentos e sentimentos, e, em última instância, define a qualidade de como ele leva a vida. Como diz o ditado, existem 3 versões para um mesmo evento: a minha, a sua e a verdadeira (que na realidade não existe, pois ela sempre vai depender de um observador que cria sua própria interpretação). Ou como Henry David Thoreau sabiamente colocou:

“Não é o que você olha que importa, mas o que você enxerga”.

Agora acompanhe o meu raciocínio: nós criamos os nossos pensamentos usando uma linguagem. No nosso caso, o Português. Criamos frases, formadas por palavras, para interpretar as nossas experiências. E cada palavra guarda em si um significado ou conjunto de significados que muitas vezes são inconscientes para nós, mas que fazem parte do nosso “inconsciente coletivo”, como diria Jung.

Segundo Jung, o “inconsciente coletivo contém toda herança espiritual da evolução da humanidade, nascida novamente na estrutura cerebral de cada indivíduo.” Ou seja, herdamos palavras que usamos sem saber o seu significado, mas perceba que esse significado molda as frases que utilizamos para construir os nossos pensamentos.

Pensamentos esses que vamos usar para dar sentido às nossas experiências. E, este fluxo de experiências encadeadas a cada minuto da sua vida, cria a sua realidade. Em resumo: as palavras que escolhemos moldam nossos pensamentos, que, por sua vez, moldam a nossa realidade através da forma que agimos e sentimos.

É por isso que as palavras têm literalmente o poder de criar. É importante que você dê atenção para as palavras que você usa recorrentemente ou que têm algum papel central na sua vida, porque elas estão moldando a sua experiência, a sua realidade e a sua saúde psicológica, metal e até física.

Parece loucura, né? Se você achou esse assunto interessante (como eu acho) recomendo a leitura do best-seller de ficção “O nome do vento” de Patrick Rothfuss, livro que é considerado pela crítica no mesmo patamar de “Game of Thrones” e “Senhor dos Anéis”.

VOLTANDO AO TEMA CENTRAL DESTE TEXTO: PROPÓSITO E VOCAÇÃO SÃO A MESMA COISA?

Se você absorveu as informações dos parágrafos acima já deve estar esperando um grande NÃO como resposta. Não apenas elas têm significados diferentes, mas você verá que o uso de uma ou de outra poderá limitar o seu potencial e o que você pode vir a realizar na sua vida. Vocação vem do Latim vocatio, “um chamamento”, ou de vocatus, “pessoa chamada”. Perceba o caráter passivo na origem da palavra: alguém chama. Alguém externo dá o comando e esse comando não vem de você.

A palavra ‘vocação’ começou a ganhar força no século XIV. Neste momento uma classe social de mercadores, pequenos burgueses, ganha espaço e importância. Com eles, uma nova mentalidade e visão de mundo- que atenda aos seus interesses- começa a surgir. O movimento protestante, na mesma época, vem contestar a Igreja Católica por condenar o lucro e acumulação de capital como pecado. Este movimento atende exatamente a essa nova classe e mentalidade nascentes.

A sociedade passa a se organizar em funções definidas, ofícios, determinados por uma entidade externa e superior, divina. Com isso a estabilidade social dá-se pelo conformismo, com uma característica de nascimento, designada por Deus.

E aí ganha força o entendimento de que temos uma vocação para sermos comerciante, carpinteiro, soldado, padre e assim por diante. Temos uma função bem definida e clara no tabuleiro de xadrez da sociedade que estamos inseridos. Ninguém pode ser aquilo que não foi “chamado” para ser e, assim, consegue-se a ordem e estabilidade social.

Roman Krznaric em seu livro “Sobre a arte de viver: Lições da história para uma vida melhor”, resume assim a visão de mundo que imperou nos séculos seguintes:

“Um segundo fio do pensamento protestante foi a ideia de um “chamado”, ou vocação. Para Lutero, isso se referia a um evento decisivo que compelia uma pessoa a dar sua vida a Deus, por exemplo, como pastor. Para pensadores puritanos posteriores isso representou a concepção de que cada pessoa devia seguir a vocação pela qual se sentia atraído – digamos como carpinteiro ou negociante de roupas – e que contribuía para o bem-estar público.”

O conceito de vocação evoluiu e ganhou força com a Revolução Industrial, quando além da função social, os cidadãos eram medidos pela sua produtividade. Para suprir as linhas de montagem com trabalhadores com a mínima capacidade cognitiva, surge, na Inglaterra, a educação universal e industrializada: fileiras de crianças em treinamento diário para serem produtivas para a nação, de acordo com a sua vocação, definida pelas suas notas e desempenho acadêmico, em vez de por uma vontade divina.

Mas o ápice da palavra vocação ocorre após a Segunda Guerra Mundial, quando a necessidade de reestruturação das economias devastadas criou a urgência de desenvolverem-se instrumentos psicológicos que ajudassem as pessoas a determinarem qual caixinha profissional elas estariam destinadas a ocupar pelo resto de suas vidas. O determinismo não é mais religioso. Agora é científico, baseado na sua personalidade-este mistério insondável para a maioria das pessoas- mas não para os poderosos testes psicométricos.

E assim os testes vocacionais ganham força e determinam em qual campo os jovens devem assinalar um “x” no manual do vestibular. Um “x” que sela um pacto de realização profissional por toda uma vida, uma vez que este jovem encontrou a sua vocação, o seu chamado. (Que bom se fosse assim tão simples).

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Mas sejamos justos, dentro do contexto histórico apresentado, a palavra vocação tem o seu sentido e uso. O mundo era mais lento, tinham-se poucas opções profissionais, e até mesmo pela baixa expectativa de vida seria muito difícil conseguir dedicar-se a mais de um projeto profissional ao longo de uma vida. (Segundo o IBGE a expectativa de vida do Brasileiro em 1960 era de apenas 48 anos).

Fazia sentido no passado. Hoje já não faz.

O mundo mudou radicalmente nas últimas décadas. A velocidade e a profundidade das mudanças só tendem a acelerar nos próximos anos: novas profissões surgem a toda hora, atividades que empregam milhões de pessoas estão sendo substituídas por robôs, linhas de conhecimento antigamente distantes se fundem e criam novas áreas de conhecimento, como a biotecnologia. Novos problemas e desafios como o aquecimento global e a globalização têm forçado a humanidade a entrar em um momento de autocrítica e reinvenção.

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Diante de múltiplas possibilidades, alta velocidade de mudanças e exigência adaptativa, uma palavra que nos permite entrar em sintonia com esse novo contexto ganha força: propósito. Propósito também vem do Latim “proponere” que significa colocar à frente. E, diferente da prima palavra vocação, perceba o seu caráter ativo: o que você vai colocar à frente? Você decide. Você cria. É seu poder e sua responsabilidade. Dentre um leque enorme de caminhos possíveis na vida, o seu propósito atua como uma boia salva-vidas, um farol que te alerta sobre as suas decisões, suas escolhas, aquilo que você decidiu colocar à frente.

E essa é uma condição fundamental para o século XXI, o século da complexidade e das palavras superlativas: “hiperconectividade”, big data, terabytes, supercondutores, etc…Propósito é uma palavra mais adequada para o modelo mental deste novo século. Pois, ao mesmo tempo em que nos ajuda a focar a atenção para aquilo que para nós é importante- e que, portanto, devemos priorizar- ela traz uma dimensão evolutiva e adaptativa; mutante: o que você coloca à frente HOJE.

E esta escolha evolui e muda na medida em que você muda:

– Interesses que se fundem (veja aqui alguns dos cursos do MIT Media Lab. O que acha de biomecatrônica, computação afetiva ou máquinas moleculares como opções para se especializar?).

– Projetos que brotam a partir de uma nova oportunidade (como seria o Moporã – uma escola online de educação para a vida – sem o surgimento recente, menos de 10 anos, do mercado de treinamentos online?).

– Diferentes fases da vida trazem diferentes necessidades e interesses (as pesquisas indicam que a geração de 30 anos hoje poderá romper facilmente a barreira dos 100 anos com saúde).

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Esta flexibilidade e a ancoragem da expressão “propósito de vida” trazem uma diferença crucial quando comparada com a palavra “vocação”: propósito está mais ligado aos seus valores, talentos e legado do que a uma atividade ou profissão. Várias atividades são possíveis para que você viva um mesmo propósito. Por exemplo: Ana tem como propósito de vida trazer um olhar mais humano para a educação. Ela decidiu fazer escolhas na sua vida que a permitam viver uma realidade em que ela dê o seu melhor em busca de uma educação mais humana (e isso dá sentido e realização para ela).

Como ela pode fazer isso?
– Ela pode ser professora em um colégio que aplica uma metodologia não tradicional de ensino.
– Ela pode trabalhar como pesquisadora acadêmica em alguma instituição ligada à evolução da educação.
– Ela pode ser uma programadora que participa de um projeto ligado à realidade aumentada e educação.
– Ela pode criar uma empresa que dá cursos voltados para autoconhecimento.
– Ela pode trabalhar na área política influenciando as políticas públicas ligadas à educação.
– Ela pode trabalhar em uma ONG que desenvolve projetos de educação complementar em regiões de baixa renda.

Existem inúmeras possibilidades.

Perceba que não é a atividade em si que determina o propósito de uma pessoa. A atividade é apenas um meio pelo qual a pessoa vive o seu propósito. Como coloca Sri Prem Baba em seu best-seller “Propósito – A coragem de ser quem somos”: “O propósito interno está relacionado com aquilo que a pessoa faz no mundo, mas o fazer em si não é o propósito. O fazer é um instrumento por meio do qual o propósito se realiza.”

Se, ao contrário, ao invés de criar o seu propósito de vida, a Ana buscasse a sua vocação, é bem provável que ela fosse direcionada para uma faculdade de Letras e se tornasse professora de ensino médio. Uma função social, produtiva, determinada e para a vida toda. Não tem problema algum se esse for o caminho que ela escolher.

Mas ela deveria escolher e não ser escolhida, pois desta forma as chances de criar uma vida com mais prazer e significado -em um mundo tão volátil- são maiores. Veja que essas possibilidades de caminhos no exemplo da Ana trazem competências e formações bem diversas- o que mostra outra característica da palavra propósito: criatividade. Propósito de vida é uma afirmação mental que nos ajuda a entender a vida como um processo criativo a partir do sentido que nós damos a ela.

Imagino que talvez você esteja se perguntando: trabalhar o meu propósito de vida dá mais trabalho do que revelar uma vocação?

Sem dúvida nenhuma. Mas esse trabalho é proporcional à complexidade do nosso mundo hoje, em oposição aos séculos anteriores em que a palavra vocação reinou soberana. E até mesmo pelo caráter ativo versus o caráter passivo da palavra vocação é possível perceber que a energia para materializamos o nosso propósito é maior.

Mas esse trabalho é amplamente recompensado porque Propósito de vida é uma afirmação mental que nos dá condições psicológicas para criarmos uma vida que, para nós, vale a pena ser vivida.

Então, ao invés de focar no esforço, eu sugiro que você foque nos benefícios. Se você quiser saber em detalhes quais são os benefícios de criar o seu propósito de vida, leia este texto para conhecer o que a ciência já comprova sobre os ganhos de se ter um propósito de vida definido.

FICA A PERGUNTA CRUCIAL: VOCÊ QUER CRIAR O SEU PROPÓSITO DE VIDA OU REVELAR A SUA VOCAÇÃO?

Se você ainda tem alguma dúvida sobre qual palavra guarda maior poder e possibilidades positivas para a sua vida, os dados já mostram que a palavra vocação está perdendo força e uso em oposição à palavra propósito.

Segundo Roman Krznaric em seu livro “Como encontrar o trabalho da sua vida”, um estudo em vários países europeus demonstrou que 60% dos trabalhadores escolheriam uma carreira diferente se tivessem a opção de começar novamente. E Krznaric complementa:

Nos Estados Unidos, a satisfação no trabalho está em seu menor nível – 45% – desde que essas estatísticas começaram a ser compiladas duas décadas atrás.” E finaliza: “Além disso, existe a morte do conceito de “emprego vitalício”, hoje uma relíquia ultrapassada do século XX.

O Google Trends mostra que desde 2004 tem caído o número de pessoas que buscam a palavra “vocação”. No caminho contrário, nos últimos 5 anos, a palavra “propósito” vem ganhando cada vez mais relevância.

Pesquisa da palavra vocação no Google (2004 a 2017):

Pesquisa da palavra Propósito no Google (últimos 5 anos):

E você, vai ficar de fora?

Bem-vindo ao século XXI, o século do propósito.

[Crédito da Foto: Scott Webb]

Life Coach com especialização em Propósito de Vida, Talentos, Ansiedade, Liderança, Transformações Culturais e Modelo Cognitivo. Apaixonado pela evolução da consciência vive como Nômade Digital buscando no mundo o que existe de melhor em desenvolvimento humano. Tudo o que vive e aprende compartilha em cursos e conteúdos do Moporã.

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