Sobre a presença real e não seletiva

Role para baixo

Preciso confessar para vocês, voltar para São Paulo foi um tanto quanto dolorido para mim.

Florianópolis não é chamada de Ilha da Magia por acaso. Quem a apelidou e perpetuou seu apelido talvez tenha se relacionado com a mesma sensação que eu tive durante os 8 meses que passei por lá. Para além da saúde que exala da Joaquina e da Mole, além da beleza das cores e dos corpos de Jurerê, além da rica diversidade da Lagoa da Conceição, existe uma energia em Florianópolis que te mantém conectado ao momento presente.

E a mágica acontece quando você está presente. A beleza não se releva nas lembranças do passado e muito menos nas projeções do futuro, mas sim no aqui e agora. Por isso não era raro aquela terra nos oferecer presentes inusitados. Ora era uma vista incrível, ora era um entardecer perfeito, por vezes vinha na forma de um delicioso pescado na casa do próprio pescador.

Encerrar a temporada de Florianópolis foi tranquilo e repleto de gratidão. Mas chegar em São Paulo teve um efeito compressor e devastador em mim. Nos primeiros dias sofri com a poluição, com seu o zunido incessante e com a sensação claustrofóbica de estar sendo esmagada por carros, pessoas e prédios.

Me vi infeliz por estar aqui. Desejei ir embora logo. Desejei voltar para Florianópolis. Desejei seguir viagem para o Chile. Desejei dormir muito. Desejei não estar presente. E por desejar tão forte, eu não estive.

No último domingo, o desejo de não estar presente me fez acordar muito tarde, tarde o suficiente para que o café da manhã fosse uma proposta atrasada. Saíamos a pé em busca de um lugar que pudesse oferecer uma comida suficientemente substancial para o horário e suficientemente leve para os nossos estômagos recém acordados.

E caminhar pode ter um efeito poderoso no exercício de presença. Ao andar pelo centro da cidade, São Paulo novamente se revelou para mim. Através da pobreza triste dos moradores de rua, da beleza dos imponentes e deteriorados prédios históricos, da diversidade dos grupos que circulavam pelas ruas, do delicioso brunch que nos alimentou naquela tarde de domingo eu me reconectei. Me reconectei comigo e com o lugar onde eu estava. Me entristeci e me emocionei com a situação de tanta gente dessa cidade. Me deliciei com sua gastronomia. Me surpreendi com a sua grandiosidade e ritmo pulsante e acelerado.

E pude entender que estar presente é se abrir para receber todo o potencial de vida de onde você está, independente do que você vá receber.

Talvez estar presente fosse mais fácil em um lugar de natureza farta e ritmo sincronizado. Talvez a quantidade de informações, prédios, pessoas, carros e buzinas me desviasse do aqui e agora e me jogasse para a lembrança do passado ou para a projeção do futuro. Mas a real presença não é seletiva. A presença não escolhe lugar, não escolhe tempo, não escolhe emoção. A real presença te tira da distração e permite que você possa explorar potencialidade da vida, onde quer que você esteja.

Não estou dizendo que é fácil, por isso há de se praticar. Devagar e constante. Sem pressa, mas sem pausa. Até que vire um hábito e comece a fazer parte de nós.

[Crédito da Foto: Yuri Catalano]

 

Co-fundadora, produtora de conteúdos e facilitadora sênior dos cursos e programas do Moporã. É especialista em desenvolvimento humano nos temas: propósito de vida, transformações culturais e empoderamento feminino. Também é uma buscadora do mundo interno e externo, viajante e nômade digital.

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