Todos poderão trabalhar com algo que lhes dê senso de propósito?

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Para além de respostas ingênuas ou simplistas que surgem a partir de visões de mundo romantizadas ou de crenças cristalizadas que limitam e simplificam as possibilidades da nossa humanidade, este texto tem a intenção de responder essa pergunta com lucidez, discernimento e didática.

Minha resposta não é a única e nem é definitiva. É uma tentativa de trazer luz e conhecimento para essa questão delicada que surge quando falamos sobre propósito de vida.

Para contextualizar: propósito é, por definição, o sentido ou o significado maior que você atribui a alguma atividade que você realiza. É o sentimento que surge quando você sente que o que você faz é maior do que você. É importante tanto para você quanto para o mundo.

Mas, então? Todos poderão trabalhar com algo que lhes dê senso de propósito? Todos os seres humanos, até aqueles em condições mais miseráveis terão a oportunidade de experimentar o senso de realização através das atividades nas quais se engajam?

Não há resposta curta para isso. Por isso, se você tem interesse nessa discussão, te convido para me acompanhar pelas próximas linhas.

E esta história começa em 1943 quando Abraham Maslow desenvolveu a sua teoria da “Hierarquia de necessidades”, conhecida como a famosa “Pirâmide de Maslow”, tema obrigatório em qualquer curso de gestão e administração.

Segundo Maslow, os seres humanos são motivados a se comportarem de forma a suprirem suas necessidades, que seguem uma ordem pré-estabelecida, indo das necessidades mais básicas até as mais complexas (das necessidades biológicas até as psicológicas).

Apenas quando as nossas necessidades mais básicas estão supridas é que podemos ansiar por suprir necessidades de ordem superior. Isso significa que quando as minhas necessidades biológicas ainda não estão supridas, eu nem ao menos vislumbro a possibilidade de ter necessidades relacionadas à autoestima e à autorrealização.

Pirâmide de Maslow e a hierarquia das necessidades

Por exemplo, se eu tenho necessidades básicas de alimentação, moradia, saúde e integridade física, são essas necessidades que norteiam a minha vida. Não está no meu espectro de consciência a necessidade de ser reconhecido por algum feito meu; ou a necessidade de sentido e realização através do meu trabalho.

As necessidades de níveis superiores só passam a ser percebidas quando as necessidades anteriores já foram total ou parcialmente supridas.

A teoria da “Hierarquia de necessidades” de Maslow foi amplamente estudada por outro autor de desenvolvimento humano, chamado Richard Barrett. Barrett evoluiu a pirâmide de Maslow para uma nova teoria a qual chamou de “Estágios do desenvolvimento psicológico”.  

Cada pedaço da pirâmide, agora transformada em ampulheta, corresponde a uma fase do desenvolvimento psicológico dos seres humanos. Cada fase corresponde ao nível de necessidades, aos valores, à visão de mundo e ao nível de complexidade que aquele ser humano consegue absorver.

Os níveis 1,2 e 3 correspondem às nossas necessidades básicas- o que Barrett chama de necessidades do ego- e os níveis 5,6,7 correspondem às nossas necessidades de crescimento- o que Barrett chama de necessidades da alma. O nível 4 corresponde justamente ao momento da individuação, ou seja, quando as nossas necessidades básicas estão relativamente supridas e podemos abrir espaço para suprir necessidades de crescimento.

Estágios do desenvolvimento psicológico de Richard Barrett

Uma necessidade básica é algo que precisa ser obtido para nos sentirmos seguros física e emocionalmente. São as nossas necessidades de sobrevivência, segurança, relacionamento, pertencimento e reconhecimento.

Uma necessidade de crescimento é algo que permite que você tenha uma sensação interna de alinhamento com a sua verdade. Barrett refere-se a essas como necessidades existenciais: um modo de existir no mundo, com medo e ansiedade mínimos, que permita a você ter uma sensação de alinhamento consigo mesmo em um nível mais profundo.

A busca por um senso de propósito encontra-se no nível das necessidades de crescimento. Mais precisamente no estágio 5: o estágio da autorrealização, segundo Barrett.

A necessidade de propósito encontra-se no nível 5 da Teoria de Barrett

Para abrirmos espaço para vivermos as nossas necessidades de crescimento, as nossas necessidades básicas devem ter sido supridas. Não plenamente, mas minimamente, o suficiente para que não sejam elas as direcionadoras de nossas ações.

Se para você ouvir falar sobre propósito de vida faz algum sentido é porque você já chegou nesse estágio. Se internamente você sente essa necessidade de buscar formas de encontrar um significado mais amplo para a sua existência, alimentado pelo desejo de fazer a diferença, suas necessidades mais básicas estão minimamente supridas.

Isso significa que, na sua história, a partir das experiências que você viveu, você conseguiu de uma forma ou de outra suprir suas necessidades de sobrevivência, pertencimento e reconhecimento.

Com certeza você não é uma pessoa que passa fome. Asseguro que você tem onde dormir esta noite. De forma mais ou menos plena, você tem relacionamentos onde você pode dar e receber amor, experimentando o sentimento de pertencimento. Com certeza você também já sentiu o gosto do reconhecimento, da valorização e da importância em algum ambiente social do qual você faz parte.

Pode haver lacunas não preenchidas em suas necessidades básicas? Com certeza e provavelmente haverá. Talvez você tenha dívidas, viveu ou vive em relacionamentos abusivos e destrutivos (afetivos, de amizade ou familiares) ou sente que a sua autoestima não é lá das melhores.

O ponto é: se você pensa a respeito do seu propósito e quer vivê-lo em sua vida é porque de alguma forma, no geral, as suas necessidades mais básicas foram supridas e você abriu espaço para pensar sobre propósito; inclusive para se preocupar se outras pessoas também terão a possibilidade de viver os seus próprios propósitos.

Ou seja, a questão do propósito de vida é importante para você hoje.

E aqui eu começo a responder parcialmente a sua pergunta: todas as pessoas poderão trabalhar com algo que lhes dê senso de propósito?

A minha resposta para isso é que todos aqueles que se questionarem sobre isso poderão sim ter uma vida com mais propósito, trabalhando com algo que lhes traga o senso de realização. Então, se você está se questionando sobre isso, sim, você tem a possibilidade de viver uma vida com mais propósito.

O que vai definir se você vai ou não conseguir está relacionado com a sua conquista pessoal e, principalmente, com o seu comprometimento com esse processo. Eu voltarei a falar sobre isso mais a frente.

Agora eu sei que você não está falando de si mesmo. Você está me perguntando sobre todas as outras pessoas do mundo; aquelas que vivem em condições de extrema pobreza ou miséria, em regimes autoritários ou realizando trabalhos de caráter semiescravo.

Você segue me perguntando se o propósito é para todos.

Mas antes de continuar respondendo a sua pergunta, eu quero que você guarde um ponto: quando você questiona se todos poderão viver uma vida com propósito, você não pergunta por achar que isso é importante para os outros. Isso é importante para você. Viver com propósito é irrelevante e, muitas vezes sem sentido, para quem não atingiu esse estágio de desenvolvimento psicológico. Pode ser que um dia se torne importante para essa pessoa. Mas hoje ainda não é. E quando for, significa que a pessoa alcançou o estágio onde ela pode trabalhar para obter essa conquista. Lembre-se que nem sempre isso foi importante, relevante ou até mesmo objeto de reflexão para você.

A teoria dos “Estágios do desenvolvimento psicológico” afirma que todos os seres humanos seguem esse padrão de desenvolvimento evolutivo. Portanto, a possibilidade de navegar por todos os estágios é aberta para todos nós.

Agora, aqui entra um outro fator importante de considerarmos para essa análise; o fator que compõe o restante da minha resposta.

Os estágios das necessidades básicas são, em grande parte, vividos dentro de um contexto, ou seja, há outros elementos que impactam o preenchimento dessas necessidades.

Em especial quando estamos analisando o primeiro estágio, aquele referente à sobrevivência, o contexto social impacta consistentemente o preenchimento das necessidades relacionadas à segurança, alimentação, moradia e saúde.

Se nascemos e crescemos em um ambiente onde a nossa integridade física é constantemente ameaçada, onde não temos garantias de alimentação, de moradia digna e saúde, encontramos muito mais dificuldades em evoluir para os demais estágios de desenvolvimento psicológico até o nível onde o propósito passa a ser importante e necessário para nós.

Em um contexto social de miséria, pobreza, doença, guerra e fome, a motivação das pessoas que fazem parte desse contexto estará direcionada para suprir essas necessidades mais básicas. Falar em propósito é como falar outra língua. Não passa nem perto do entendimento da realidade daquele contexto e das pessoas que fazem parte dele.

Quando o contexto social dá condições para que as pessoas daquela sociedade tenham suas necessidades básicas minimamente supridas, o papel do indivíduo nesse processo ganha força e autorresponsabilidade.

Há claro outros fatores que impactam o desenvolvimento desse processo de evolução: o nível de desenvolvimento psicológico de nossos pais, a evolução cultural da comunidade à qual pertencemos, o nível de educação que atingimos. Mas, sem dúvida, quando as necessidades mais básicas estão supridas, ganhamos um impulso para conquistar os demais níveis com autonomia.

Portanto, viver o nosso propósito é uma conquista. Primeiro, é uma conquista social. Quando uma sociedade alcançou um nível onde seus cidadãos estão com as suas necessidades básicas minimamente supridas, teremos mais pessoas vivendo vidas mais prósperas e realizadoras. Infelizmente ainda há sociedades vivendo quase que majoritariamente na base da pirâmide, sejam aquelas devastadas pela fome ou por guerras.

Um ponto de conforto é que, quando olhamos para o nosso desenvolvimento social enquanto humanidade, hoje há mais pessoas que têm suas necessidades básicas supridas do que aquelas que não têm. Há menos pessoas passando fome ou vivendo na miséria do que há 100 anos. É claro que, enquanto sociedade, ainda temos um longo caminho a percorrer. Mas quanto mais pessoas avançarem em suas jornadas evolutivas, mais cidadãos conscientes e críticos teremos. Consciência e crítica nos tornam menos manipuláveis e mais engajados socialmente. E o engajamento social dos cidadãos é imprescindível para prosperarmos enquanto humanidade.

O segundo ponto é que viver nosso propósito também é uma conquista pessoal. Estando minimamente supridos de nossas necessidades básicas, cabe ao indivíduo traçar a sua trajetória de realização, que pressupõe a libertação de camadas de programação parental e cultural, domínio de medos profundos e resgate da confiança em si mesmo e no fluxo da vida.

Decidir trabalhar para continuar avançando em seu processo de desenvolvimento psicológico é uma decisão pessoal. Esse caminho pode ser mais longo ou mais curto, mas é uma jornada que todos os seres humanos podem empreender.  

Portanto, todas as pessoas poderão trabalhar com algo que lhes dê senso de propósito?

Potencialmente sim. Todos os seres humanos têm o mesmo potencial de desenvolvimento psicológico. Quando uma pessoa se desenvolve psicologicamente de forma saudável, chegará um momento da sua vida em que o senso de propósito será importante para ela. Quando esse momento chegar, significa que ela está munida dos recursos mínimos para vivê-lo e existe uma chance grande dela buscar viver esse propósito através do trabalho.

Na prática, todas as pessoas viverão vidas com propósito? Provavelmente não.

Pelo menos pela próximas gerações, pois ainda há grande parte da população que não tem suas necessidades básicas atendidas.

Mas se potencialmente todos os seres humanos podem atingir esse nível de realização, é lá que o meu foco está. No que é possível atingirmos. Sigo acreditando que a prosperidade humana é o resultado de um número cada vez maior de pessoas avançando em suas trajetórias de desenvolvimento, munidas de um senso de confiança, realização e engajamento.

Afinal, um mundo melhor é o resultado de transformações individuais que transformam o todo.

[Crédito da Foto: Timon Studler]

Co-fundadora, produtora de conteúdos e facilitadora sênior dos cursos e programas do Moporã. É especialista em desenvolvimento humano nos temas: propósito de vida, transformações culturais e empoderamento feminino. Também é uma buscadora do mundo interno e externo, viajante e nômade digital.

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