Maternidade Compulsória: Quem em você quer ter um filho?

Maternidade Compulsória: Quem em você quer ter um filho?
17 de maio de 2017 Larissa Mungai

Quem em você quer ter um filho? O egoísmo? O medo da escassez? O medo da solidão? A programação social? Ou a verdade da sua alma?

Hoje chegou até mim um artigo do El País sobre a síndrome da genitora tóxica. O texto fala sobre mulheres que chegam à maternidade por caminhos pouco desejados, seja porque a gravidez não foi planejada, seja porque ela apenas seguiu a programação “natural” e socialmente esperada que conduz as mulheres a perpetuarem o padrão de conhecer alguém, casar e, claro, ter filhos, o que acaba na possibilidade de resultar (em alguns casos) em relacionamentos negligentes, tóxicos e abusivos entre esses filhos e suas progenitoras.

Segundo o artigo, um relacionamento entre mães e filhos é abusivo quando existe nessa relação inveja e desejo de anulação ou excessiva proteção e sufocamento. Pode haver projeções por parte das mães de desejos e vontades não realizadas em seus filhos e a vitimização como principal estratégia de manipulação, mães dependentes que invertem os papéis e fazem com que seus filhos se encarreguem de seu bem-estar físico e emocional. E sempre, em todos os casos, a negligencia e a falta de disponibilidade emocional.

O resultado disso são indivíduos que crescem inseguros, com baixa autoestima, necessidade elevadíssima de aprovação, autoexigência brutal, dificuldade para a intimidade emocional e um vazio profundo que derivam da falta dessa amor primário.

Esse quadro é mais comum do que se imagina. Há milhares de crianças feridas perambulando pelo mundo dos adultos buscando preencher esse vazio da forma que conseguem. Alguns tentam preencher através de relacionamentos afetivos, outros através do dinheiro e bens materiais, outros através do sexo, outros através do abuso de tudo que possa lhe trazer um alivio temporário.

Muitas vezes a busca por preencher esse vazio se manifesta na ilusória necessidade de ter um filho. E aquele adulto carente e infantilizado acaba por replicar o relacionamento abusivo que viveu em sua infância, perpetuando um ciclo destrutivo de negligência e falta de amor.

Nessa história não há bons ou maus. Uma mãe abusiva não é ser humano ruim. É apenas um ser humano que não deveria (queria) ser mãe. Muitas vezes essa mulher é vítima das crenças sociais e culturais que não aceitam que uma mulher não responda à sua “programação biológica”. É a mulher que é vitima da sua própria falta de autoconsciência, vítima das vozes externas que gritam por todos os lados e que abafam a sua própria voz. É vítima do marido que impõe essa condição. É vitima da familia. É vítima da mídia que mascara e romantiza a maternidade. É vitima da falta de autoconhecimento, poder pessoal e auto estima necessários para bancar uma decisão tão corajosa como a de não ter filhos.

A vítima se cura com autorresponsabilidade. A maternidade não é para todas e que mal há nisso? Há almas que carregam esse desígnio e há almas que não. Há almas que canalizarão toda a sua energia criativa para parir idéias, projetos, empresas. Há outras que parirão vidas.

E claro, há almas que, através da maternidade, terão a oportunidade de aprender, evoluir, conhecer o amor maternal e assim quebrar o ciclo destrutivo da negligência, mesmo que inicialmente a escolha de ser mãe não tenha sido consciente.

Gestar, parir, maternar exige disponibilidade. De tempo e especialmente emocional. Não importa se você está gestando, parindo, maternando um projeto ou uma vida, antes de ingressar nessa jornada, questione-se: “Eu estou disponível?”

Se não estiver, agradeça pela oportunidade de refletir e siga em frente. Sem culpa.

Estamos em outro momento da existência humana. Não é porque seguimos uma programação biológica por milhares de centenas de anos que precisamos perpetuar esse modelo destrutivo de relações, que acaba por afetar todo o sistema que vivemos.

Estamos tão mais conscientes sobre tantas questões, firmes em um processo de despertar de uma consciência mais crítica e questionadora, que é chegado o momento de encarar a maternidade como uma escolha, uma escolha verdadeiramente nossa.

Honesta e corajosamente questione-se: Quem em você quer ter um filho?

PS: Essa discussão pode e deve ser ampliada para a paternidade, mas no momento me atenho à provocação sugerida pelo texto que comentei no início, que sugere o relacionamento entre mãe e filhos, à minha crença, cientificamente sustentada, que a relação entre a mãe e o filho em sua primeira infância tem impactos consistentes em sua formação (superiores ao pai) e ao meu trabalho de apoiar as mulheres em seu processo de empoderamento e de escolhas conscientes.

PS2: A quem interessar, compartilho o artigo de Olga Carmona publicado no El País.

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