Patriarcado: Por menos vítimas e algozes e mais agentes de mudança

Patriarcado: Por menos vítimas e algozes e mais agentes de mudança
13 de junho de 2016 Larissa Mungai

Há um bom tempo eu estudo as origens e os efeitos do Patriarcalismo. Assim como toda dinâmica cultural, sua formação é muito pulverizada e complexa e toda tentativa de explicá-la sempre será simplista, mas vamos lá:

Alguns estudiosos dizem que o Patriarcalismo deu sinais de vida quando ferramentas agrícolas começaram a surgir, tais como o arado. A mulher, que até então era a principal responsável pela agricultura, não tinha força física para manusear tais ferramentas. Entra em cena o grande homem viril a a mulher perde a importância na principal atividade exercida pela humanidade.

Outras pesquisas dizem que a dominação masculina chegou chegando quando descobriram que a concepção não era um evento divino e místico  destinado apenas às mulheres. Era necessário também um falo, uma penetração e um esporro de esperma para produzir a vida. A Deusa, fértil como os campos e responsável por dar a vida, foi rebaixada à uma maquina de reprodução.

Mas a cereja do bolo foi o advento do Cristianismo que corrompeu todas as regiões politeístas e instaurou apenas um grande Deus, à imagem e semelhança do homem. Um único Deus que, mesmo dentro da sua grandiosidade, reduzia as cores e complexidades da vida humana à apenas uma figura.

E lentamente, em cada canto do planeta, instalou-se uma estrutura com contornos próprios, uma cultura que de forma venenosa e sutil passa a definir comportamentos, atitudes e pensamentos: a direção, a força, a virilidade, o controle, a dominação, a razão. Somente tais comportamentos são valorizados. Somente. Mais uma vez: Somente.

O Patriarcalismo se define hoje como um sistema social baseado no controle dos machos sobre as fêmeas. Mas mais uma vez estamos sendo simplórios e simplistas.

Se eu puder me arriscar a ir além desse entendimento, diria que o Patriarcalismo é a rejeição de tudo o que é feminino.

Da rejeição do feminino nas mulheres. 

Da rejeição do feminino nos homossexuais.

Da rejeição do feminino nos homens.

E assim rejeitamos, desprezamos e desvalorizamos características humanas. Que estão presentes em mim. Que estão presentes em você. No seu marido. Nos seus filhos. No seu chefe. Nos soldados de guerra.

E ao permitir que apenas um lado da nossa humanidade se expresse, e o pior, com um desequilíbrio excessivo, nós fazemos vítimas.

A vítima é a mulher estuprada. 

A vítima é o gay espancado. 

A vítima é o homem ridicularizado. 

A vítima é a mulher que anda de saia curta. A vítima é o gay que faz uma demonstração de afeto em público. A vítima é o homem que é obrigado a encher a cara e pegar mulheres mesmo não querendo.

E somos tão vítimas desse sistema, que somos também algozes.

O algoz é o pai que ensina ao filho que quando alguém bate ele deve revidar.

O algo é a mãe que não ensina seu filho a abraçar, a compreender, a reconhecer e expressar seus sentimentos.

O algoz somos todos nós que hipermasculinizamos nossos meninos e hiperfeminilizamos nossas meninas.

Que valorizamos, tanto em nossos homens quanto em nossas mulheres a conquista na base do grito, do subjulgamento, e da inferiorização, afinal para sermos bons, alguém tem que ser pior que a gente. E assim vamos separando: a esquerda da direita, o homem da mulher, o homossexual do heterossexual.

Somos vítimas e algozes.

E por sermos ambos, podemos escolher não ser. Porque tanto a vítima quando o algoz, de forma inconsciente se alimentam desse sistema e assim o perpetuam. Queremos algo de que reclamar. Queremos algo para sair às ruas. Queremos algo para discutir na mesa do bar.

Esse ciclo só se rompe quando decidirmos ser agentes de mudanças. E isso significa sermos a mudança. 

Quando pararmos de tentar lutar com as mesmas armas do Patriarcalismo. 

Quando valorizarmos o feminino que clama e implora em cada um de nós.

Quando o discernimento, a compreensão, acolhimento, empatia, o sentimento e o dialogo tiverem igual espaço com a direção, a força, a virilidade e a razão.

Quando aceitarmos a nossa humanidade integral.

Quando pararmos de olhar o outro como inimigo.

Essa luta é todos que verdadeiramente querem a evolução da humanidade. Mulheres e Homens. Que a nossa luta seja revolucionária. Mas revolucionária de verdade. Se não, é apenas reacionária. E a reação é produto do Patriarcalismo.

_________________________________________________________________________

2 2