As lições do passado para o momento presente

Role para baixo

Há mais ou menos um mês eu iniciei um curso de empreendedorismo social e nesse fim de semana participei do penúltimo módulo que tinha o objetivo de trabalhar o poder pessoal. Durante três dias, mergulhei em uma série de dinâmicas para acessar a minha energia mais agressiva.

Vivi, senti e degustei a raiva. Mas não aquela raiva que destrói seu hospedeiro e o ecossistema a sua volta, mas sim a energia que surge na boca do estômago e que, se bem canalizada, nos dá força e direção para a realização, nos deixa em contato com o nosso poder de gerar mudanças, que é como uma descarga elétrica em nosso corpos nos deixando alertas e preparados para os desafios que a vida nos coloca.

Num dado momento da sexta-feira, aproximadamente umas três horas da tarde, pude experienciar o momento que, como um ferrete em brasas, marcaria a minha alma. As vezes o Universo tem dessas e gentilmente nos coloca dentro de uma epifania que deliciosamente muda nossa perspectiva de quem somos ou de quem achamos que somos.
Marchando como soldados, punhos cerrados, os pé batendo com força no chão recebendo através da sola toda a energia da Mãe Terra. Paramos. Olho no olho, olhares que continham sangue. Éramos eu, uma outra colega do grupo e uma almofada. A almofada representava o sonho de cada uma e deveríamos brigar por ela (literalmente).

E começa a luta! E é perna pra um lado, pé pro outro, e cabelo na cara, e rola do chão, grita, puxa a almofada. Pequenina que sou, rolei por cima, dei uma chave de perna na pobre da almofada, me deitei por cima dela e pronto! A almofada era só minha e a adversária não podia fazer nada a não ser lamentar a sua perda.

Dinâmica encerrada, olhando nos olhos da minha parceira dou-lhe um longo abraço e vou para o meu canto. De repente, de uma forma súbita sou tomada por um sentimento de frustração e desconforto. Se a almofada era minha, por que eu não estava celebrando a conquista? Fecho os olhos e me permito ser tomada por toda aquela aquela angústia dilacerante.

O ano era 1995. Eu chegava em casa mais uma vez toda chorosa porque aquela coleguinha da escola, que era o dobro do meu tamanho, tinha me obrigado a fazer toda a lição dela mais uma vez. As ameaças, caso o trabalho de casa não fosse feito, eram as mais variadas: “Vou comer todo o seu lanche e você vai ficar com fome”, “Vou rasgar todo o seu caderno”, “Se você contar para alguém, vou te bater”! E a cada lição duplicada e horas a menos de brincadeira, a raiva ia tomando conta da minha alma infantil. Era muito ódio crescendo dentro daquele pequeno ser. Desejava crescer e ganhar força para assim poder distribuir fisicamente todos os sentimentos ruins que ela havia acendido em mim!

Naquele mesmo ano, numa tarde chuvosa, minha mãe entrou no meu quarto e encontrou a sua cria amuada e tristonha resolvendo pesarosamente o exercício de matemática que não tinha sido oficialmente dado a ela. Estafada daquela situação, contei tudo para minha mãe, mesmo sob as ameaças de apanhar se alguém soubesse. Reuni forças e dividi com a minha progenitora todo o calvário que estava passando há meses.

Do alto dos meus 7 anos, eu jamais poderia compreender o efeito que aquela conversa teria na minha vida adulta, mas foi naquele momento, naquela tarde de 1995, que eu entrei em contato com a minha arma mais poderosa: A minha capacidade de acolher e de dar amor. Assim como havia desejado, eu cresci e ganhei força para lidar com aquela situação, não de forma física, mas pelo coração.

No dia seguinte, munida das forças do amor e com as palavras da minha mãe ecoando em minha cabeça, chamei a valentona para uma conversa muito séria. Ergui a cabeça (até para poder olhar para cima, porque ela era muito mais alta que eu) e disse que não faria mais a lição dela pois aquilo não era justo, mas que se ela quisesse, poderíamos fazê-la juntas na minha casa e eu a ajudaria nas matérias que ela tinha dificuldade. Já com os olhos fechados esperando o soco vir encontrar meu rosto ouvi um “Tá bom, vou falar com a minha mãe para ir na sua casa amanhã”. Nossa! O que tinha acontecido ali? Não vou apanhar?

Eu e Amanda passamos muitas tardes estudando juntas. Ela era muito engraçada e me ensinou uns golpes de judô para caso um dia eu precisasse me defender de alguma machona. Estudamos juntas até 2002 e depois ela se mudou para Curitiba.

Ouço uns barulhos de conversas e risadas. Abro os olhos, 15:50 da última tarde de sexta-feira. A angústia de ter conseguido algo na base do grito tinha passado e eu estava absolutamente confortável em saber que meu maior poder não era acessado daquela maneira que haviam me sugerido. Se apropriar da sua história de vida permite que você descubra e compreenda os eventos que definiram quem você é hoje e que determinam o que é importante em sua vida.

Nós todos temos padrões que se tornam evidentes em nossas vidas — os papéis que exercemos; a maneira como lidamos com desapontamentos; a maneira como reagimos às situações específicas, etc. Se esses padrões apoiam o seu crescimento e desenvolvimento, então você irá querer saber como eles podem apoiá-lo nesse momento. Se esses padrões não apoiam, então você irá querer identificá-los e compreendê-los, e agir para que se tornem positivos em sua vida.

E para isso precisamos olhar para trás e compreender tudo o que nos levou a ser a pessoa que somos hoje. Para qualquer mudança que desejamos fazer em nossas vidas, precisamos observar nossa história, o que nos trouxe até aqui. Dessa forma, nos apropriamos de nós mesmos e tomamos decisões mais conscientes e lúcidas sobre como queremos cuidar de nossas vidas.

Tire um tempinho para você e faça essa reflexão. Te garanto que será extremamente gratificante!

[Crédito da Foto: Soragrit Wongsa]

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