Você tem medo de ser comum?

Role para baixo

Hoje eu vou contar a história da Vanessa.

Vanessa foi uma das muitas alunas que eu apoie na condução de um processo autoinvestigativo para a identificação do seu propósito de vida. Assim como muitas pessoas, Vanessa nos procurou porque sentia-se perdida. Estava em busca de sentido na vida. Queria ter consciência de seus dons e talentos; queria encontrar uma atividade profissional que fosse intrinsecamente recompensadora. Vanessa queria viver uma vida com mais propósito.

Com o nosso apoio, Vanessa mergulhou em um profundo processo de autoconhecimento que trouxe à tona informações importantes sobre a sua história: interesses, talentos, competências; seguido de uma intensa etapa de testes, protótipos e tentativas que finalmente culminou na materialização do seu propósito em um projeto de vida.

Vanessa é fisioterapeuta e trabalhava no setor de ergonomia e ginástica laboral de uma grande indústria multinacional. Ela coordenava uma equipe de professores que circulavam pelas fábricas dando aulas de 10 minutos de ginástica laboral para os funcionários. Vanessa queixava-se que os funcionários não davam a mínima para os professores, não viam valor nos exercícios e por isso não paravam suas atividades para realizar as aulas. A empresa tampouco dava importância para o setor, sendo o primeiro a sofrer cortes quando haviam reajustes orçamentários. Vanessa não estava satisfeita com a rotina que levava, com seus horários, com as atividades que executava. Ela não se sentia desafiada e questionava, com pesar, as suas decisões de carreira.

Vanessa é a segunda filha mais velha de quatro irmãs. Seus pais se separaram quando ainda era pequena. Cresceu em uma casa rodeada de mulheres: mãe, irmãs e a avó materna que morava com elas. A mãe e a avó trabalhavam fora e Vanessa ajudava a cuidar de suas irmãs menores. Vanessa também é mãe de um menino e uma menina. Durante as duas gestações, envolveu-se fortemente com estudos a respeito do parto e encantou-se por esse assunto. Seus dois filhos nasceram em casa e Vanessa tornou-se uma defensora do parto natural humanizado.

Durante o seu processo de autoinvestigação, conduzido com a nossa ajuda, ela conseguiu, finalmente, nomear seus talentos: empatia, conexão, foco e responsabilidade. Também ficou claro para ela os valores que norteavam a sua vida: família, saúde, independência, confiança e a preocupação com gerações futuras.

Vanessa percebeu que o público com o qual ela mais gostava de se relacionar eram mulheres, em especial mães.  A sua criação e o convívio intenso com muitas mulheres durante toda a sua vida fizeram com que ela desenvolvesse uma sensibilidade especial para lidar e empatizar com os desafios do universo feminino.

Durante o processo de autoconhecimento que Vanessa estava vivendo, as muitas descobertas sobre si fizeram com que ela começasse a perceber novas possibilidades para explorar a sua formação como fisioterapeuta. Por conta das suas experiências positivas com o parto humanizado, ela começou a estudar os benefícios que a fisioterapia trazia para as gestantes e para as mulheres em trabalho de parto e percebeu que o seu conhecimento poderia ser aplicado de outras formas. Resolveu, então, fazer uma formação para ser Doula. E depois outra. E mais outra. Durante esse período, ela acompanhou alguns partos e me confessou o quão intenso e recompensador essa experiência havia sido para ela.

Vanessa também começou a criar a sua própria metodologia de exercícios para mulheres em trabalho de parto baseada no seu conhecimento e experiência em fisioterapia. Depois de alguns meses, passando por um intenso processo que envolveu muitas reflexões internas e experiências no mundo externo, Vanessa completou a sua transição. Ela pediu demissão da empresa em que trabalhava e começou a atuar de forma autônoma, atendendo gestantes e integrando equipes de parto humanizado. Durante essa jornada, Vanessa enfrentou inúmeras inseguranças, dúvidas, incertezas e desconfortos, mas, segundo ela, também viveu momentos de intensa realização, conexão e prazer.

No fim do processo, Vanessa escreveu a sua frase de propósito de vida. A frase que ela decidiu que nortearia as suas ações dali para frente:

“Estarei à serviço das mulheres durante o processo de transição para a maternidade”.

– “Você está feliz com a definição do seu Propósito de vida, Vanessa?” perguntei à ela.

– “Sim, estou muito feliz.”

Embora Vanessa estivesse sorridente e confiante eu pude sentir uma pontinha de frustração.

– “Está feliz mesmo?” perguntei novamente.

– “Muito! Mas não foi uma descoberta épica, sabe? Parece que todas as respostas já estavam lá.”

– “E estavam. As repostas estavam na sua história, nos seus talentos, nos seus interesses. O propósito não brota do nada, ele vem de dentro de você. Você gostaria que essa revelação tivesse sido mais épica?”

– “Acho que sim.”

– “Por quê?”

– “Não sei. Acho que estava esperando por algo surpreendente, avassalador, diferente de tudo o que poderia imaginar.”

Épico é a hipérbole do heroico e significa uma grandeza fora do comum, monumental, memorável, homérico, colossal. Eu sabia que a Vanessa estava feliz e sei também que se ela se mantiver fiel ao seu propósito de vida, que ela mesmo revelou para si, suas ações trarão realização e felicidade.

Mas eu fiquei intrigada com a sua resposta. Vanessa esperava que a revelação do seu propósito fosse algo épico e, no entanto, para ela, parece ter sido um tanto óbvio, natural, trivial. Talvez, trivial demais.

O MEDO DE SER COMUM

Refleti muito sobre a sutil frustração de Vanessa diante do trivial, ou até mesmo do óbvio, que se revelou a partir dela mesma. Será que esperamos que o nosso propósito de vida, aquilo que deveria ser a expressão mais autêntica de quem somos, se releve como sendo algo completamente descolado do “eu” que conhecemos?

Será que um advogado frustrado com a profissão alimenta a expectativa de seu propósito se revelar o de ser um astro do rock, mesmo sem ele ter qualquer afinidade com música? Ou talvez um chef de cozinha, mesmo sem ele saber (ou ter vontade de aprender) fritar um ovo? Ou será que talvez ainda guardamos o desejo secreto, alimentado por tantas histórias de fantasia, de que o céu se abra sob nossas cabeças e, ao som de sinos celestiais, uma voz nos revele a nossa missão?

Afinal, o que seria essa revelação épica que Vanessa esperava?

Motivada por essa pergunta, passei a estar mais atenta para perceber como clientes e alunos estavam se relacionando com suas descobertas internas positivas e notei que, alguns deles, apresentavam sintomas parecidos no desenrolar do processo de autoconhecimento:

  • altas expectativas irreais;
  • um medo generalizado de “ser comum”;
  • e uma triste resistência de se aceitarem como realmente são. Como se suas verdades fossem frustrantemente triviais e pequenas demais.

Já vi alunos relutantes, sem querer aceitar seus próprios talentos. Eles dizem: “Mas meus talentos são tão comuns. Todo mundo é assim ….” ou “Não gostei dos meus talentos. Eles parecem tão normais.” ou ainda “Os talentos daquele colega parecem ser bem mais interessantes e profissionalmente úteis.”

Já vi alunos, como a Vanessa, sentirem que suas descobertas internas não eram grandiosas e impactantes o suficiente. E, ao invés de celebrarem suas conquistas, se frustravam com seus dons “comuns demais”.

A COMPARAÇÃO PARA DEFINIR NOSSA MEDIDA DE VALOR

O que eu percebi é que muitos alunos estavam atribuindo o valor de suas descobertas internas por meio da comparação. O ato de nos compararmos com outras pessoas para definir a nossa própria medida de valor é parte da condição humana. Nos comparamos o tempo todo, mesmo que não de forma proposital e consciente. Comparamos nosso corpo, nosso peso, nossa inteligência, nossa capacidade, nossas realizações, nosso salário.

A estrutura de validação do ego funciona da mesma forma para todos nós. Definimos um punhado de quesitos, atribuímos uma escala e buscamos no mundo informações para definir a nota que cada quesito receberá. Em um processo de desenvolvimento psicológico saudável, quanto mais eu avanço na minha caminhada evolutiva, menos eu precisarei de informações externas para atribuir minha medida de valor. Porém, em maior ou menor grau, sempre iremos no comparar. A comparação é um mecanismo do ego do qual não podemos fugir. O outro faz parte da equação que eu uso para atribuir o meu valor. O problema é que o “outro” que eu utilizo para me comparar está se tornando cada vez maior, mais ilusório e mais idealizado.

Há 30 anos, eu comparava meu corpo, minha inteligência e minhas realizações com as dos amigos próximos, vizinhos, familiares e alguns colegas de trabalho. No máximo, com a modelo da capa da revista ou com a atriz da novela.

Hoje, por conta da tecnologia da informação, da hiperconectividade e da hiperexposição das redes sociais, eu estou sempre me comparando com os milhares de amigos que eu tenho no Facebook, com as dezenas de celebridades que eu sigo no Instagram e com todos os modelos de padrões de sucesso (profissional, físico, pessoal, etc) que a mídia e a publicidade nos enfiam goela abaixo. E o pior de tudo isso é que dificilmente eu comparo a minha verdade com a verdade do outro. Quase sempre, eu comparo a minha verdade com uma projeção editada, customizada, alterada e fantasiada de verdade.

Redes Sociais: O que é verdade e o que é ilusão?

Podemos sempre nos comprometer a sermos pessoas melhores e a buscarmos referências e inspirações, o que é muito importante. Mas não se engane. O modelo de sucesso que estão te vendendo sempre vai vir editado, customizado e “photoshopado”. Em um mundo em que todas as exposições são modeladas para serem perfeitas, sinto lhe informar, mas você sempre vai perder na batalha da comparação.

Homão da porra
Rodrigo Hilbert: Homão da porra: A verdade que chega editada.

Cada vez que você atribui o seu valor próprio, comparando a sua humanidade maravilhosamente imperfeita com a projeção de perfeição que você vê por aí, sua alma vai se apequenando, se limitando, se sentindo cada vez mais inferior e incapaz. E para reforçar ainda mais o nosso sentimento de pequenez, somos bombardeados, a todo tempo, por mensagens que exigem que sejamos ousados, incríveis, fabulosos, que façamos façanhas e que deixemos de ser medíocres.

Somos, o tempo todo, bombardeados pela mensagem: “Faça algo incrível que vai mudar o mundo”. Não há nada de errado em sermos ousados, incríveis, fabulosos. Eu acredito que somos e que merecemos nos sentir assim. Mas só conseguiremos nos sentir dessa forma quando a medida da nossa ousadia não for algo definido por uma entidade externa, mas sim pelo nosso senso de autovalor e autoestima.

Enquanto permitirmos ter alguém nos dizendo que ser fabuloso é a nova medida do sucesso e definindo qual o modelo ideal para atingirmos isso (que, na maioria das vezes, não é atingível), continuaremos alimentando o medo irracional de sermos comuns e medíocres.

Medo de ser comum: Performances irreais para a maioria de nós.

A OUSADIA DA AUTENTICIDADE

Em algum momento, nossa aluna Vanessa criou em sua mente a expectativa de que revelar o seu propósito seria algo extraordinariamente épico. Ou que seria uma revelação descolada da concepção que ela tinha de si mesma. As imagens criadas na mente de Vanessa sobre essa descoberta são formadas a partir das informações que ela coletou no mundo externo. Histórias que ela ouviu e assistiu, exemplos (reais ou fictícios, fidedignos ou alterados) de pessoas realizadas, leituras, notícias, imagens. Todas as essas informações transformam-se, na mente de Vanessa, em expectativas e idealizações sobre o que é propósito, o que é realização e o que significa trabalhar com algo que se ama, e, dessa forma, ela cria para si a medida do que ela espera para si. Qualquer coisa diferente pode ser frustrante.

A essa altura, não estou falando apenas da expectativa de Vanessa de que a revelação do seu propósito fosse algo épico. O exercício nocivo da comparação afeta a nossa autoestima de inúmeras maneiras, em todas as esferas de nossas vidas. Comparar minha humanidade imperfeita com a ideia de perfeição me leva a um sentimento de pequenez, insuficiência e incapacidade. Mas, principalmente quando falamos em processos de autoconhecimento, temos que tomar um cuidado especial com as comparações, pois estamos acessando camadas mais profundas da nossa verdade.

Como vibrar com o reconhecimento dos meus talentos natos quando parece que há tantas outras pessoas com talentos muito mais incríveis que os meus? Como ficar feliz com a revelação do meu propósito de vida quando há outras pessoas vivendo propósitos mais grandiosos, fabulosos, épicos? Como aceitar que, mesmo encontrando meu propósito, ainda terei que lidar com tantos outros desafios da vida?

No processo de autoconhecimento, estamos lidando com revelações que têm o potencial de alterar a rota da nossa vida. Cada descoberta que fazemos sobre nós mesmos, é como receber um presente valiosíssimo. Por isso, é preciso estar desperto e consciente sobre as ideias preconcebidas que incorporamos do mundo externo que podem nos cegar e nos impedir de enxergar o quão valiosas nossas revelações podem ser.

É fácil cair na armadilha de estar sentado em cima de um baú de ouro enquanto se olha para o baú dos outros. Se apropriar do seu propósito de vida e trabalhar para que seu contexto permita que você o materialize também envolve o amadurecimento de nossas expectativas e o discernimento para abandonar tudo que é fantasioso ou mentiroso.

Para ser feliz sendo realmente quem você é, desapegue da ideia do que acha que você deveria ser. Apenas seja. A autenticidade é a coisa mais inspiradora que existe.

[Crédito da Foto: Rodion Kutsaev ]

 

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