Sobre a carta de Mark Manson e a necessidade de aprofundarmos essa visão

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A carta aberta de Mark Manson ao Brasil causou comoção aos brasileiros. Bom, comoveu pelo menos uma parcela de jovens brasileiros que estão de alguma forma engajados ou minimamente sensibilizados com o momento difícil que o nosso país vive.

Se você não tem ideia do que eu estou falando, leia o texto “Uma carta aberta ao Brasil ou veja o vídeo onde a Bel Pesce lê a carta de Mark Manson na íntegra.

Mark Manson não está errado. Li em sua carta um punhado de verdades. E toda verdade carrega junto de si duas características: A parcialidade e a falta de empatia. Mark Manson deixou muitos de nós chocados, incomodados e resignados ao dar um belo tapa na cara dos brasileiros nos chamando de corruptos, vaidosos e egoístas.

É verdade Mark. Nós somos corruptos, vaidosos e egoístas. A cultura do jeitinho brasileiro é a nossa luz e nossa sombra. E todo mundo sabe disso, quanto maior a luz, maior a sombra. Vivemos todos os dias, em cada uma de nossas ações, o céu e o inferno da cultura que construímos. Em seu discurso, que é uma mistura de desabafo, pedido de socorro, indignação e um dedinho de ódio, Mark compara o Brasil com os EUA e com os países da Europa. Mark compara brasileiros à americanos e europeus. Mas será que essa é uma comparação possível? Comparações de qualquer gênero são possíveis? Mark Manson e você já pararam para se perguntar por que diabos o Brasil e o brasileiro são do jeito que são?

Deixemos de lado as comparações com outros países e tentemos ser empáticos com a nossa própria história. O Brasil é praticamente uma criança entrando na pré adolescência. Tem uma história recente de descobrimento, de colonização e de Democracia. Ainda se recupera das cicatrizes deixadas pela exploração de seu povo e de suas terras, pela escravidão e pela ditadura e se comporta exatamente da maneira que esperamos um adolescente se comportar: Teimoso, egoísta e com uma necessidade enorme de aceitação e reconhecimento. 

O World Values Survey  é um projeto que desde a década de 80 coleta dados sobre os valores e crenças em 90% dos países do mundo e estuda como estes valores impactam o desenvolvimento político e social desses países. Segundo a pesquisa, o Brasil se encontra em um momento de transição. De acordo com a WVS, existe um padrão natural e evolutivo em todas as sociedades em que os seus valores gradualmente mudam de “tradicionais” para “seculares”. Isso tem impacto positivo nos índices sócio-políticos, de bem-estar e felicidade daquela nação.

Valores Tradicionais enfatizam a importância dos dogmas religiosos, da autoridade, do conservadorismo e dos valores tradicionais de família e propriedade.  Já Valores Seculares enfatizam a defesa das minorias (negros, mulheres, homossexuais, etc), dão menos ênfase na religião (mas há espaço para a discussão sobre a espiritualidade), na autoridade e na instituição tradicional da família e questões como aborto e drogas começam a ser discutidas abertamente. Ou seja, liberdade de expressão e igualdade de direitos tornam-se valores centrais.

A World Values Survey colteta dados sobre os valores e crenças em 90% dos países do mundo e estuda como estes valores impactam o desenvolvimento político, econômico e social desses países.

A World Values Survey coltea dados sobre os valores e crenças em 90% dos países do mundo e estuda como estes valores impactam o desenvolvimento político, econômico e social desses países.

Agora façamos uma análise dos movimentos sociais que estão ocorrendo em nosso país: Nunca em nenhum momento da nossa história ouviu-se falar tanto em defesa de minorias, empoderamento feminino, feminismo, etc

E você acha que tudo isso é aleatório? Ou que as pessoas que dão sua cara a bater e colocam suas vozes no mundo foram atingidas pelo raio do mimimi? Se você é daquelas pessoas que acha que o mundo está ficando mimizento e chato demais, sinto-lhe em informar: Estamos apenas no começo. O debate, a discussão e até uma certa dose de radicalismo são necessários para qualquer transição. Colocar os assuntos na roda é o primeiro passo para evoluirmos para um novo patamar de valores, comportamentos e cultura. E sim, o Brasil começou a sua transição.

Traduzindo em miúdos: Existe um padrão natural de evolução das nações e de seus cidadãos. Essa evolução se dá com o tempo de maturidade da formação daquela sociedade somado à melhoria de índices econômicos. A evolução das nações e de seus cidadãos possibilita que valores como liberdade de expressão e igualdade emerjam. No Brasil começamos a ver movimentos de emancipação e empoderamento entrarem nas rodas de discussão e embora esses movimentos ainda sejam tímidos, vemos claramente que estamos dando um salto em nossa evolução enquanto sociedade.

Isso não significa que devemos parar de lutar e deixar que o tempo cumpra o seu papel em nossa evolução. Muito pelo contrário! Agora é hora de arregaçarmos as mangas se quisermos sair da adolescência e virarmos adultos!

E um adulto de verdade tem compaixão pela sua história e reconhece que tudo que viveu foi necessário para chegar onde chegou.

[Crédito da Foto: Ricardo Motti]

 

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